JAYR PENY, UM ARTISTA UNIVERSAL- Texto de Gileno Guanabara

julho 11, 2012 JAYR PENY 1 Comments

JAYR PENY

UM ARTISTA UNIVERSAL 


A Jayr Peny certamente não direi “o mais português dos artistas plásticos brasileiros”, haja vista tratar-se de um cidadão do mundo. O fato de ter nascido em Natal/RN, em 1965, onde passou a infância, travou seus primeiros estudos até chegar a Universidade e viver hoje em Portugal, é como se lhe aplicasse a sentença de Gertrude Stein: “os escritores deveriam ter dois países: aquele onde nasceram e o outro onde de fato vivem” (“Paris França”- Ed. José Olímpio), uma mera coincidência. É vasta a sua trajetória de arte. De sua vida, sabemos o período de anomalia institucional em que nasceu, viveu e sua geração se debateu. Ao deixar-nos para ir às terras de além-mar, premonição de sabedoria, deixou-nos aqui um imbróglio a saldar, a cura pela democracia. Lá abeirou-se de outra cultura. Essa foi a nossa pajelança. 

Como se se repetisse a amanhecença de todos os dias, digo, ainda assim, que a arte não desgruda das condições sociais do seu tempo espacial, sem querer afirmar com isso que seja Ela uma resultante única da super-estrutura económica, simplesmente. O artista não vive no vácuo. A sua obra não é um fogo-fátuo de incandescência fugaz. A sua obra, em seu conjunto, comporta ideias estética, concepção de vida, sensibilidade, uma sociedade dada, um momento histórico. Os talentos artísticos, portanto, nascem em resposta as idiossincrasias do espaço social. 

Do Barroco (século XVII) ao Romantismo (século XIX), a arte sintetizou crises econômicas, conflitos sociais, crises religiosas, éticas, estéticas e políticas, enfim crise de sensibilidade, externadas através de formas distintas, mas tendo sempre ao fundo o “Homem”, ora hipertrofiado (Barroco), oura na contemplação exagerada por si mesmo (Romantismo), nem sempre numa concepção otimista do mundo. Diferentemente, a crise atual, o “Homem” devorado pela “manus maquinae” invisível, o “Homem”, não mais o “eu”, destruído pelas facções, pelas corporações e pelas nacionalidades, enfim, a crise do “Homem” e, portanto, crise do Humanismo. 

Depois da visão naturalista das coisas, consagrada através da concepção renascentista, chegou-se ao Impressionismo (Giotto). Após Monet, Renoir e Cézanne, o caminho inexorável levou lentamente ao Expressionismo (Van Gogh) e ao Simbolismo estético (Gauguim), chegando ao Abstracionismo, a renúncia ao objeto, a autonomia, a pintura pura e abstrata. 

Por isso, a pintura atual busca formas puras, sem coonestação ao mundo das aparências e se afasta das realidades puras da natureza. Não raro - diante da crise de objetividade que também é a crise da própria pintura - o artista se envolve no conflito entre a regra e a emoção: a livre criação versus fórmulas acadêmicas. Sem expressão, sensualidade, emoção, a par da conveniência com a regra, a arte pictórica inexiste. 

Assim é Peny, a sua identificação espacial múltipla nos alcança, ao transplantar para cores fortes as peripécias lúdicas que guardou e ora nos devolve, as tradições ibéricas trazidas pela colonização (eu diria: “Brincadeira de Estatua”); a introspeção (“Reflexo Interior”; “Num Canto da Casa”); o rosto e a censura das mulheres quase nuas (Caleidoscópio); o figurino imperial dos arautos pós-medieval, em ponta-de-pé, dispostos numa configuração monástica dos corpos (“Guerreiros Frente a Frente”).

O jogo dos volumes em corpos rechonchudos, quase redondos, criados a partir da forma que lembra as figuras imortais de Botero, aliado a cor marcante e definitiva em cada espaço. Olhos fitos e azuis, rostos simétricos de uma eugenia que o artista captou. De Picasso a influência: uma noção espacial de beleza, mas despojada do ódio, do desespero, do ressentimento político, que o genial pintor viu-se tocado, o expressionismo de sua monumental Guernica, ou das geniais mulheres de faces duplas que mortificou. Diferentemente, em Peny, o “leit motif” são o congraçamento inocente e a despolitização de gestos simples, a despreocupação nos cabelos esvoaçantes ou não de suas mulheres.

Razão assiste ao crítico português, Fernando Moniz Lopes, ao atribuir a Jayr Peny “um geometrismo figurativista” quebrando a rigidez das retas com a sinuosidade das curvas, opondo o drama ao lirismo revelando deste modo ainda essa sua dualidade fundamental que se manifesta nas suas figuras quase que andróginas... (Lisboa, 1998).

Se pela ausência que nos debita a falta, suas telas, tintas e cores, enfim, a obra de Jayr Peny nos completa e corrige. Um cidadão indomável. Um potiguar a que mais dá cor ao mundo. À pintura, seja louvado. 

Arte sempre!


Gileno Guanabara
Crítico e Pesquisador de Arte